2.6.10

O Jardim Secreto {ou De Persona Mea}


Praticamente ninguém ou talvez ninguém sabe o que aquelas portam encerram. Aqueles extensos e altíssimos muros transbordam uma relva já não tão verde; saliente e chorosa. É difícil transpor os galhos rigidamente entremeados e vislumbrar a nudez da parede pedregosa. É um mistério que envolve tão intransponíveis muralhas... O portal é belo, embora melancolicamente arquitetado. Parece grosso em largura, e certamente o é. Vigorosos umbrais de carvalho, já escurecidos pela fértil ação dos temporais e longos invernos, apresentam-se mesmo aos olhos mais desapercebidos.


Assoma o espírito a sensação de que por detrás de tão temíveis muros e tão amedrontadora porta, exista um jardim. Um belo jardim, possivelmente. Alguns observadores mais atentos que demoraram-se em tentar desvendar os mistérios ali escondidos, asseguraram poder sentir o doce cheiro de flores primaveris. Glicínias, dálias e violetas, talvez. Cheiro forte, lânguido e alentador, mas perceptível somente aos mais corajosos que quedaram-se em transpor os muros com outros sentidos que não o visual.






No outono e no inverno a rigidez circunscreve-se mais firmemente no jardim. Secreto. A força do vento e do frio cega o olhar e dissipa as esperanças de encontrar uma chave ou uma forma de captar os tesouros que ali podem estar escondidos. O que será que há ali dentro?? Dores, alegrias, sofrimento, amores? Perdas, resignação, impulsividade? O pouco que pode-se perceber é o cheiro, é a inquietude e a verve do decadente exterior.

Alguns afiançam ter encontrado pequenas janelas ali. Esmaecidas, embaçadas e quase invisíveis por detrás dos duros galhos e folhas. A pouca nitidez alcançada com o auxílio da luz do Sol permitiu, diz-se, admirar um pequeno paço abandonado. Uma fonte de água, belamente adornada, inquieta em meio aos canteiros, descansava ali. Flores dançavam com o vento, flores que pareciam lágrimas besuntadas de esperanças e vazios. Umas poucas fraturas no interior dos muros, mas tudo ainda de pé, resistindo ébriamente ao tempo e à erosão que ele contorna nas almas. Tudo tão belo, tão misterioso...tão desconhecido.

Penso no dia em que um aventuroso personagem enfim enxergará o que aquelas pedras úmidas e lodosas encerram. De forma completa e irreal.

...

2 comentários:

Lucas Souto disse...

Tenho duas opiniões:

1ª - O texto ficou poético, e bem escrito...
2ª - Num pó falá... rsrs

Bjs

Erundulë disse...

hahahahahah!!

Num pó falá memo não! XD