19.4.10

Identidade e Hominidade


Hoje assisti ao filme Blade Runner, do Ridley Scott (1986). Para quem ainda não teve a oportunidade, eu recomendo!! Enfim, o fato é que todo o contexto me proporcionou algumas reflexões, não sei se úteis, mas que assim mesmo aqui se dilatarão.

Atualmente muitas discussões são construídas tendo por base o elemento identidade, mais propriamente a identidade do homem. Até que ponto a influência midiática afeta a memória e identidade coletiva, indiretamente (ou diretamente?) agindo sobre a memória pessoal? São questões que o filme aponta, de saborosas maneiras.


O Lucas me passou um trecho de uma resenha (tendo em vista o vasto conhecimento sobre a minha pessoa) que resgata uma nuance interessante que percebi no roteiro:

"Enfim, não é suficiente o “cogito ergo sum” (como disse a replicante Pris para J.F. Sebastian: “Penso, Sebastian, logo existo”). Ou seja, não basta apenas “pensar para existir” (a referência sarcástica à famosa frase de Descartes sugere uma critica do racionalismo cartesiano, base da filosofia do sujeito e da civilização do capital). Estamos diante de uma aguda contradição: o homem demonstrou ser capaz de dar a vida, mas não conseguiu ainda ser capaz de dar-lhe um sentido. Ou melhor, o homem ainda não se tornou capaz de constituir um campo de desenvolvimento humano, onde a vida possa ser plena de sentido. Os Nexus 6, em seus curtos quatro anos de vida útil, estão condenados a sofrer de forma infinitamente intensa esta experiência trágica. Talvez nós, homens e mulheres, possamos sofrê-la de forma mitigada."¹



Os replicantes são formas de vida criadas pela Tyrell Corporation, em 2019. São em tudo similares aos humanos, exceto pelo fato de não possuírem memórias próprias e seu tempo de vida útil ser, como já dito, de quatro anos. São meros objetos da reprodutibilidade técnica, nos quais está imbutido um sentido de valor cujo limiar não chega à hominidade. Nós não somos, ao fim e ao cabo, meros produtos também?? Refinados, com personalidade e especialização diversos, mas ainda assim previsíveis e com padrões emocionais que nos distinguem dos sem-memória ou sem-humanidade? Se você morrer amanhã, uma ou duas míseras almas podem até sentir a perda por uns dias, mas o sistema (capitalista ocidental) decerto não sentirá. Pode parecer melancólico e marxista (novidade né?), mas retirando uns excessos, chegamos à intragável tarefa de perceber aonde começa o homem e aonde termina a peça. A construção.


Muitas pessoas tem dificuldade em tecer suas próprias personalidades, agindo vampiricamente com o meio externo, e por isso mesmo, são verdadeiras mímeses dos outros. Não critico isso, apenas constato. Identidade e personalidade não são obras do acaso e da geração espontânea. Já li estudos (lembro a fonte não) que asseguravam que mesmo quando bebês já temos atitudes e noções particulares, indícios de personalidade. Eu, pessoalmente, espero que seja verdade. Não é agradável a idéia de sermos simples e descartáveis componentes do complexo modo de produção. E eu nem considero alienante o capitalismo e a mídia. As pessoas que se alienam. Eu defendo a idéia de troca, através da qual os homens se reconhecem externamente, mas não absorvem de forma integral a mensagem, filtrando apenas o que lhe é interessante e útil. É nesse ponto que reside a beleza e unicidade do ser humano, paradoxalmente tão único e tão similar. Pode ser reposto, mas sempre ficará um vazio na alma dos que sabem do amor.


Finalizo esse post viajante com a mais bela (em minha opinião) frase do filme, poética e melancólica. Quando tiver mais tempo e mais mente, quem sabe não alongo esses produtos de alucinação...



All those moments will be lost in time like tears in rain. Time to die. (Roy).



¹http://www.telacritica.org/BladeRunner.htm
Imagem: Criança Geopolítica Assistindo ao Nascimento do Novo Homem – Salvador Dali - 1943

Um comentário:

Lucas Souto disse...

Sem dúvida uma das mais primorosas obras do cinema de ficção. O Scott é um craque. Espero ansioso pela sua direção em "Admirável Mundo Novo" - que supostamente sái por agora.

O filme gera inúmeras interpretações. Já li um bocado delas... e cada vez aparece mais. Mas, enfim, filme bom é assim, nos da espaço para pensar. Tô cansado desses enlatados, super óbvios, que não nos dão nenhuma brecha.


Não vou me aprofundar na opinão da Camila. Tô n'uma fase de apenas concordar. (rs)

Mas a parabenizo em dois pontos: a escolha do filme/tema; e a escrita (refinada).

Bora lá! O blog tá fino...

Abraços aos leitores!